"Não sou nem de esquerda nem de direita. Primeiro, eu acho que essas definições de facto hoje em dia já não fazem grande sentido".
Tomás Azevedo, neto de Belmiro de Azevedo, Sic, 2008-08-31
There is a war between the ones who say there is a war
And the ones who say there isn't.
Leonard Cohen, New Skin for the Old Ceremony, 1974
Outros destaques: "Não gasta dinheiro em música e filmes porque tira quase tudo da internet" (a ilegalidade como virtude) e "Os fornecedores(!) gostam muito de atrasar os pagamentos".
terça-feira, setembro 02, 2008
quarta-feira, agosto 13, 2008
This be the verse
They fuck you up, your mum and dad.
They may not mean to, but they do.
They fill you with the faults they had
And add some extra, just for you.
Este poema, talvez o mais conhecido de Larkin, levou-me a um blog onde se faz uma análise.. eh.. original. Não é fácil perceber a 100% se o autor do blog acredita realmente na interpretação que faz, mas é difícil levar a sério um fulano que diz, noutro post: "If only it were possible to separate the shit from food before eating it — think how much more convenient things would be." (ler também a discussão nos comentários, que envolve mel, abelhas, ursos e hippies)
They may not mean to, but they do.
They fill you with the faults they had
And add some extra, just for you.
Este poema, talvez o mais conhecido de Larkin, levou-me a um blog onde se faz uma análise.. eh.. original. Não é fácil perceber a 100% se o autor do blog acredita realmente na interpretação que faz, mas é difícil levar a sério um fulano que diz, noutro post: "If only it were possible to separate the shit from food before eating it — think how much more convenient things would be." (ler também a discussão nos comentários, que envolve mel, abelhas, ursos e hippies)
quarta-feira, agosto 06, 2008
Literatura de WC 5
De momento ando em re-leituras:
. Os vários Senhores do Gonçalo M. Tavares (Caminho)
. Em diálogo com Jorge Luis Borges, I e II (Circulo de Leitores) (que li há meia duzia de anos quando andava a descobrir o argentino)
. Tertúlia de Mentirosos, contos filosóficos do mundo inteiro (Jean-Claude Carrièrre, Tinta da China) (que ofereci também há vários anos, e agora encontrei a 4,99 na livraria Oficina do Livro de Alcochete)
PS: Não propriamente para o WC, mas também a 4,99, estava o V de Thomas Pynchon que, por já me andar a piscar o olho há muito tempo, vai ter entrada directa para o top de livros a ler em breve
. Os vários Senhores do Gonçalo M. Tavares (Caminho)
. Em diálogo com Jorge Luis Borges, I e II (Circulo de Leitores) (que li há meia duzia de anos quando andava a descobrir o argentino)
. Tertúlia de Mentirosos, contos filosóficos do mundo inteiro (Jean-Claude Carrièrre, Tinta da China) (que ofereci também há vários anos, e agora encontrei a 4,99 na livraria Oficina do Livro de Alcochete)
PS: Não propriamente para o WC, mas também a 4,99, estava o V de Thomas Pynchon que, por já me andar a piscar o olho há muito tempo, vai ter entrada directa para o top de livros a ler em breve
terça-feira, julho 29, 2008
The National, CCVF, 18 Julho
Uma banda cujos últimos 2 ou 3 álbuns são não só muito bons mas uniformemente bons arrisca-se a dar um concerto em que o público conhece todas as músicas e se sente em casa. Em casa, numa noite de calor e lua cheia nos jardins do Centro Cultural Vila Flor.
"We've been playing in so many ugly places this summer. Obrigado very much."
PS: Após esta breve interrupção vou voltar ali para trás e continuar a vergastar-me por não ter ido ver o Cohen.
PS: Após esta breve interrupção vou voltar ali para trás e continuar a vergastar-me por não ter ido ver o Cohen.
Conhecimento de causa
Alberto João Jardim, anteontem em Chão da Lagoa: "[José Socrates] faz o que há de menos ético num Estado democrático, usou o Estado para fazer combate politico".
Bem, ninguém pode acusar o senhor de falar de coisas que não conhece.
Bem, ninguém pode acusar o senhor de falar de coisas que não conhece.
Já foram
Uma das vantagens de ter um blog raramente actualizado e ainda menos lido é que se pode ir de férias e voltar, e nem se nota.
quinta-feira, junho 12, 2008
Pormenor idiota (ou será palerma?)
Ontem a TSF anunciava que tinha acabado terminado a reunião o encontro com a Antram, com sucesso êxito, mas que o comunicado final ainda não tinha sido emitido porque as partes não se entendiam. A Antram queria dizer que houve um "acordo", mas o Ministro pretendia desejava que fosse referido mencionado que houve um "entendimento".
Não tenho vistos as notícias, e nem me apercebi que o Ricardo Araújo Pereira já tomou posse como Ministro dos Obras Públicas. Parabéns ao rapaz, sempre achei que ele tinha valor.
Não tenho vistos as notícias, e nem me apercebi que o Ricardo Araújo Pereira já tomou posse como Ministro dos Obras Públicas. Parabéns ao rapaz, sempre achei que ele tinha valor.
E as contas, carago?
Duas vitórias em dois jogos, e ficou logo arrumada a classificação para os quartos-de-final. Desta vez, não vamos ter aquilo porque todos ansiamos: as contas. Que piada tem um Europeu em que não vamos para a última jornada a pensar que ainda é possível, mas só se a Croácia perder por 3 e nós vencermos por 5, com todos os golos ao pé-coxinho?
Se não dermos pelo menos um murro no árbitro até ao final não vejo mais futebol.
Se não dermos pelo menos um murro no árbitro até ao final não vejo mais futebol.
sexta-feira, junho 06, 2008
Citizen Plainview
I hate most people. There are times when I look at people and I see nothing worth liking. [...] I want to earn enough money I can get away from everyone. I can't keep doing this on my own, with these.. people..
(There Will Be Blood)
(There Will Be Blood)
segunda-feira, maio 26, 2008
Tradições
Não somos tantos como isso, mas somos bons e apostados em manter vivas as ancestrais tradições deste país. Parabéns, portanto, aos 5168 portugueses que hoje às 11 da noite estavam no site das finanças a preencher o IRS.
quarta-feira, maio 21, 2008
Mistérios
Ontem noticiava-se que, agora que a lei não permite cobrar o aluguer dos contadores de água, as autarquias vão, numa atitude típica do país-que-temos, passar a aplicar uma "taxa de disponibilidade".
No editorial do Público de ontem, José Manuel Fernandes dizia que "é imcompreensível que [...] se tenha aprovado na Assembleia da República uma lei [para] abolir a chamada taxa do contador". Acrescentava que "não cabe na cabeça de ninguém que viva com os pés assentes na terra que a forma correcta de optimizar os consumos de água seja abolir uma taxa que fazia parte do preço final pago pelos consumidores".
São os pequenos mistérios da vida que a fazem bela. Por exemplo, é um pequeno mistério como é que alguém, depois de ter meditado sobre o assunto, acha que uma taxa fixa (= não dependente do consumo) é um bom método para manter os consumos baixos. É um mistério um pouco maior como é que esse alguém pode chegar a director de um grande jornal.
No editorial do Público de ontem, José Manuel Fernandes dizia que "é imcompreensível que [...] se tenha aprovado na Assembleia da República uma lei [para] abolir a chamada taxa do contador". Acrescentava que "não cabe na cabeça de ninguém que viva com os pés assentes na terra que a forma correcta de optimizar os consumos de água seja abolir uma taxa que fazia parte do preço final pago pelos consumidores".
São os pequenos mistérios da vida que a fazem bela. Por exemplo, é um pequeno mistério como é que alguém, depois de ter meditado sobre o assunto, acha que uma taxa fixa (= não dependente do consumo) é um bom método para manter os consumos baixos. É um mistério um pouco maior como é que esse alguém pode chegar a director de um grande jornal.
quarta-feira, maio 14, 2008
Parábola do Jorge 2
E se, afinal, escondido no auto-rádio que teve de devolver, o Jorge tivesse ficado também sem um bilhete de viagem pela Europa?
E se alguns até já soubessem disso, mas tivessem tido o cuidado de não avisar o Jorge que o bilhete estava lá dentro até ser tarde demais para recuperar o auto-rádio?
E se, por uma vez, o Chico-esperto provasse do próprio veneno?
E se alguns até já soubessem disso, mas tivessem tido o cuidado de não avisar o Jorge que o bilhete estava lá dentro até ser tarde demais para recuperar o auto-rádio?
E se, por uma vez, o Chico-esperto provasse do próprio veneno?
domingo, maio 11, 2008
Parábola do Jorge
O Jorge tinha sempre mais dinheiro do que o resto do pessoal lá do bairro. Nunca explicou como obtinha esse dinheiro, mas toda a gente sabia que ele roubava auto-rádios: dezenas de moradores já se tinham queixado dos roubos, mas nunca tinha sido apanhado.
Um dia, finalmente, alguém mostrou uma filmagem com meia dúzia de anos onde se via o Jorge a roubar um auto-rádio. Agora sim ia-se fazer justiça, pensaram alguns mais ingénuos; finalmente havia uma prova de todos os roubos que andou a fazer durante anos. A decisão da "justiça" conseguiu surpreender: o Jorge foi apenas condenado a devolver o auto-rádio que roubou naquele dia, que ainda tinha lá guardado e que já nem funcionava. De resto, tudo continuou como dantes.
"Nem tudo foi em vão", pensou o pessoal lá do bairro, que era muito bom a perceber parábolas. "Pelo menos agora não vamos ter de ouvir os portistas a dizer que nunca se provou nada".
Um dia, finalmente, alguém mostrou uma filmagem com meia dúzia de anos onde se via o Jorge a roubar um auto-rádio. Agora sim ia-se fazer justiça, pensaram alguns mais ingénuos; finalmente havia uma prova de todos os roubos que andou a fazer durante anos. A decisão da "justiça" conseguiu surpreender: o Jorge foi apenas condenado a devolver o auto-rádio que roubou naquele dia, que ainda tinha lá guardado e que já nem funcionava. De resto, tudo continuou como dantes.
"Nem tudo foi em vão", pensou o pessoal lá do bairro, que era muito bom a perceber parábolas. "Pelo menos agora não vamos ter de ouvir os portistas a dizer que nunca se provou nada".
sábado, maio 10, 2008
Diamanda Galás
Diamanda três-oitavas-e-meia Galás veio ontem à noite visitar a nossa campa, no seu longo véu negro.
A senhora não fala entre músicas, num concerto rápido (pouco mais de uma hora, incluindo 2 encores de uma música), por isso o espectáculo é "só" aquilo que já se conhece: a voz de Maria Callas numa Piaf que caiu em pequena num caldeirão de ácidos (twenty five minutes to go); é cabaret; é Kurt Weil (and twelve more minutes to go); é Johnny Cash irreconhecível na sua fantasia de noite de Halloween (and five more minutes to go); são os gritos a ecoar na sala, ou não serão gritos porque grito é palavra demasiado suave para o descrever, bem, são gritos à falta de melhor alternativa, são gritos, portanto, a ecoar, rodopiar na sala, ferem, massacram, intermináveis, insuportáveis (and here I go...).


(Theatro Circo, Braga, 2008-05-06)
A senhora não fala entre músicas, num concerto rápido (pouco mais de uma hora, incluindo 2 encores de uma música), por isso o espectáculo é "só" aquilo que já se conhece: a voz de Maria Callas numa Piaf que caiu em pequena num caldeirão de ácidos (twenty five minutes to go); é cabaret; é Kurt Weil (and twelve more minutes to go); é Johnny Cash irreconhecível na sua fantasia de noite de Halloween (and five more minutes to go); são os gritos a ecoar na sala, ou não serão gritos porque grito é palavra demasiado suave para o descrever, bem, são gritos à falta de melhor alternativa, são gritos, portanto, a ecoar, rodopiar na sala, ferem, massacram, intermináveis, insuportáveis (and here I go...).
(Theatro Circo, Braga, 2008-05-06)
segunda-feira, maio 05, 2008
Já é matemático!
Não se vê muita gente na rua a festejar (os portugueses nunca foram muito bons a fazer contas), mas a verdade é que, com o empate a valer 3 pontos, e depois de mais um excelente resultado hoje, o Glorioso já é matematicamente campeão.
Eis a primeira metade da tabela:
Eis a primeira metade da tabela:
| Vitórias | Empates | Derrotas | Pontos | |
| Benfica | 12 | 13 | 4 | 63 |
| Setúbal | 11 | 12 | 6 | 58 |
| Porto | 23 | 3 | 3 | 55 |
| Académica | 6 | 14 | 9 | 54 |
| Guimarães | 14 | 8 | 7 | 52 |
| Belenenses | 11 | 10 | 8 | 52 |
| Boavista | 8 | 12 | 9 | 52 |
| Sporting | 15 | 7 | 7 | 51 |
quinta-feira, abril 24, 2008
Nick
We make a little history every time you come around.
Obri-fucking-gado.

(Nick Cave and the Bad Seeds, Coliseu do Porto, 2008-04-22)
PS: Roam-se, lisboetas: o homem não cantou o Into my arms no Porto...
Obri-fucking-gado.
(Nick Cave and the Bad Seeds, Coliseu do Porto, 2008-04-22)
PS: Roam-se, lisboetas: o homem não cantou o Into my arms no Porto...
terça-feira, abril 22, 2008
Roubo
Porque a Justiça portuguesa não se desenrasca, decidi investigar sozinho, e descobri mais uma prova de que as classificações de futebol neste país são cozinhadas na secretaria.
Há anos decidiu-se mudar a vitória para 3 pontos. Com esta alteração a classificação está absurdamente desfasada do que milhões de portugueses desejariam, com prejuízos graves para o moral do país:
Ao alterar a vitória para 3 pontos, está-se a favorecer as equipas que ganham mais, o que me parece escandaloso e uma medida descarada para prejudicar o Benfica.
A título de exemplo, eis qual seria a classificação se, em vez de alterarem a vitória, tivessem alterado o empate para 3 pontos:
Há anos decidiu-se mudar a vitória para 3 pontos. Com esta alteração a classificação está absurdamente desfasada do que milhões de portugueses desejariam, com prejuízos graves para o moral do país:
| Vitórias | Empates | Derrotas | Pontos | |
| Porto | 22 | 3 | 2 | 69 |
| Guimarães | 14 | 7 | 6 | 49 |
| Sporting | 13 | 7 | 7 | 46 |
| Benfica | 11 | 12 | 4 | 45 |
| Belenenses | 11 | 9 | 7 | 42 |
| Setúbal | 10 | 11 | 6 | 41 |
| Maritimo | 12 | 4 | 11 | 40 |
| Boavista | 8 | 11 | 8 | 35 |
| Braga | 8 | 10 | 9 | 34 |
| Nacional | 8 | 8 | 11 | 32 |
| Estrela | 6 | 11 | 10 | 29 |
| Académica | 5 | 13 | 9 | 28 |
| Naval | 7 | 6 | 14 | 27 |
| P. Ferreira | 6 | 6 | 15 | 24 |
| Leixões | 3 | 14 | 10 | 23 |
| Leiria | 3 | 6 | 18 | 15 |
Ao alterar a vitória para 3 pontos, está-se a favorecer as equipas que ganham mais, o que me parece escandaloso e uma medida descarada para prejudicar o Benfica.
A título de exemplo, eis qual seria a classificação se, em vez de alterarem a vitória, tivessem alterado o empate para 3 pontos:
| Vitórias | Empates | Derrotas | Pontos | |
| Benfica | 11 | 12 | 4 | 58 |
| Porto | 22 | 3 | 2 | 53 |
| Setúbal | 10 | 11 | 6 | 53 |
| Guimarães | 14 | 7 | 6 | 49 |
| Belenenses | 11 | 9 | 7 | 49 |
| Boavista | 8 | 11 | 8 | 49 |
| Académica | 5 | 13 | 9 | 49 |
| Leixões | 3 | 14 | 10 | 48 |
| Sporting | 13 | 7 | 7 | 47 |
| Braga | 8 | 10 | 9 | 46 |
| Estrela | 6 | 11 | 10 | 45 |
| Nacional | 8 | 8 | 11 | 40 |
| Maritimo | 12 | 4 | 11 | 36 |
| Naval | 7 | 6 | 14 | 32 |
| P. Ferreira | 6 | 6 | 15 | 30 |
| Leiria | 3 | 6 | 18 | 24 |
quarta-feira, abril 16, 2008
A arte, a vida e os escafandros
Um ano e meio depois voltei a entrar numa sala de cinema. A ausência foi forçada, ainda que pelo melhor motivo possível.
O regresso calhou ser com O escafandro e a borboleta. O filme é inspirado em factos reais (a arte imita a vida): Jean-Dominique Bauby, jornalista e editor da Elle francesa, sofre um AVC e, paralisado, passa a poder comunicar apenas através do seu olho esquerdo. É a história de alguém que, recorrendo à imaginação, se tenta libertar do escafandro onde o prenderam (o seu próprio corpo). Se a história do Daniel Day-Lewis parecia difícil, imagine-se com um olho em vez de com um pé.
Antes do acidente o jornalista tinha já assinado contrato para um livro, que seria uma recriação (a arte imita a arte) do Conde de Monte Cristo, mas com uma vingadora feminina no século XXI. Acontece que Deus, já se sabe, é um brincalhão com um sentido de humor bastante perverso, e decide transformar o pobre do Jean-Do numa versão século XXI do velho Noirtier, o pai do Villefort do romance de Dumas (a vida imita a arte, para fechar o ciclo). Noirtier é conhecido por ser a primeira referência literária do locked-in syndrome, o mesmo de que sofre Bauby (ler o capítulo 59 do Conde de Monte Cristo para mais informações).
O filme é arte. São os planos perfeitos encontrados por Julian Schnabel para nos dar a ver o que vê quem pode apenas ver; não será possível sabermos o que é coserem o nosso próprio olho sem que nos cosam o nosso próprio olho, mas o filme coloca-nos lá perto. São as boas interpretações das várias (belas) mulheres da vida de Bauby e de Max von Sydow, que aparece pouco mas é muito bom no pior papel que a vida nos pode reservar: perder um filho. E é, já agora, o Tom Waits na banda sonora.
O filme é vida. É a desgraça, mas sem apelar ao sentimentalismo. É o humor (negro) de Bauby, ao mesmo tempo que momentos como o Chaque jour je t'attends nos impedem de o idealizar, porque cá fora os desgraçados e os coitadinhos podem ser, como toda a gente, bons ou maus, sensíveis ou insensíveis, gajos porreiros ou filhos da puta. Ou, na verdade, nem um nem outro mas ambos. Como toda a gente.
O regresso calhou ser com O escafandro e a borboleta. O filme é inspirado em factos reais (a arte imita a vida): Jean-Dominique Bauby, jornalista e editor da Elle francesa, sofre um AVC e, paralisado, passa a poder comunicar apenas através do seu olho esquerdo. É a história de alguém que, recorrendo à imaginação, se tenta libertar do escafandro onde o prenderam (o seu próprio corpo). Se a história do Daniel Day-Lewis parecia difícil, imagine-se com um olho em vez de com um pé.
Antes do acidente o jornalista tinha já assinado contrato para um livro, que seria uma recriação (a arte imita a arte) do Conde de Monte Cristo, mas com uma vingadora feminina no século XXI. Acontece que Deus, já se sabe, é um brincalhão com um sentido de humor bastante perverso, e decide transformar o pobre do Jean-Do numa versão século XXI do velho Noirtier, o pai do Villefort do romance de Dumas (a vida imita a arte, para fechar o ciclo). Noirtier é conhecido por ser a primeira referência literária do locked-in syndrome, o mesmo de que sofre Bauby (ler o capítulo 59 do Conde de Monte Cristo para mais informações).
O filme é arte. São os planos perfeitos encontrados por Julian Schnabel para nos dar a ver o que vê quem pode apenas ver; não será possível sabermos o que é coserem o nosso próprio olho sem que nos cosam o nosso próprio olho, mas o filme coloca-nos lá perto. São as boas interpretações das várias (belas) mulheres da vida de Bauby e de Max von Sydow, que aparece pouco mas é muito bom no pior papel que a vida nos pode reservar: perder um filho. E é, já agora, o Tom Waits na banda sonora.
O filme é vida. É a desgraça, mas sem apelar ao sentimentalismo. É o humor (negro) de Bauby, ao mesmo tempo que momentos como o Chaque jour je t'attends nos impedem de o idealizar, porque cá fora os desgraçados e os coitadinhos podem ser, como toda a gente, bons ou maus, sensíveis ou insensíveis, gajos porreiros ou filhos da puta. Ou, na verdade, nem um nem outro mas ambos. Como toda a gente.
quarta-feira, abril 09, 2008
Anúncio de boicote
Este blog é peremptoriamente (mas nunca perentoriamente) contra o Acordo Ortográfico, e promete utilizar pelo menos uma consoante muda por post.
quarta-feira, abril 02, 2008
Eu errei
Comentei com amigos que até percebia que este fim-de-semana tivessem assinalado um penalty inexistente contra o Benfica (afinal, o Guimarães está com os mesmos pontos), mas que inventar outro a favor do FCP (para dar a vitória 4 minutos depois da hora) me parecia desnecessário, agora que estão 16 pontos à frente e são quase matematicamente campeões. Sempre reconheci razoabilidade ao FCP e, por uma questão de equilíbrio, até costumam ser prejudicados quando já vencem por 3-0 ou já são campeões. Parecia-me por isso estranho este excesso de zelo.
Eis senão quando, poucos dias depois, saem notícias de que o FCP pode vir a perder 6 pontos já esta época devido ao Apito Dourado. O tal penalty passa de repente a fazer sentido e, sendo assim, venho por este meio retratar-me por, na minha ignorância, ter alguma vez colocado em causa os sempre acertados critérios da instituição FCP e dos seus dirigentes.
Eis senão quando, poucos dias depois, saem notícias de que o FCP pode vir a perder 6 pontos já esta época devido ao Apito Dourado. O tal penalty passa de repente a fazer sentido e, sendo assim, venho por este meio retratar-me por, na minha ignorância, ter alguma vez colocado em causa os sempre acertados critérios da instituição FCP e dos seus dirigentes.
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